Hoje vi Amelie Poulan andando na rua. Estava uma manhã cinza e chuvosa, daquelas que eu realmente aprecio. Porque me faz pensar que estou em outro lugar, entende? Manhã assim fazem Brasília se parecer com uma cidade londrina há muito esquecida no tempo e por todos os mapas, onde só se chega quando não se tem mais aonde ir nem quem encontrar.
Foi quando eu me deparei com uma garota de cabelos curtos, muito bonita, que poderia se passar por mais uma das habitantes dessa estranha cidade londrinha que amanheceu no lugar da minha hoje de manhã, se não estivesse usando uma blusa florida verde berrante e não tivesse pulado na poça d’água diretamente a minha frente.
Todas as pessoas da rua passaram por ela como se ela não estivesse lá, talvez por não terem visto, ou por quererem se ver longe dela o mais rápido possível. Eu poderia até pensar que ela fosse uma alucinação da minha cabeça, mas a poça d’água lamacenta na qual ela pisou melecou certinho a minha calça branca. Em um dia de estágio no tribunal.
A única reação que ela teve foi rir. Ela riu. E não foi aquele riso de “se fudeu, otária” que até perdoaria, porque eu me acostumei com ele, foi um riso de “nossa, isso não foi engraçado?” e eu não estava vendo nada de tão engraçado. Na verdade, estava um pouco ressentida dessa garota por ter estragado um dia perfeitamente britânico e estóico e solitário, maldita.
Aí ela me ofereceu um café pra compensar pela calça. Quase perguntei se o café era pra beber ou pra terminar de sujar minha calça branca, mas, conhecendo minha destreza, não quis brincar com a sorte. Os deuses ainda não tinham sujado minha calça tão irremediavelmente ainda, mas tudo que faltava eram minhas mãos estabanadas derramar café e ... não, não, não vamos pensar em desastres antes que eles aconteçam, porque aí eles têm mania de acontecer só pra me provar certa. Maldito ego.
Eu peço um café normal, expresso de máquina, daqueles que custa um real e cinqüenta centavos. Ela pede um Chai Latte com canela e sei-lá-mais-o-que que eu não quero ver o preço porque tenho certeza que vou ressentir essa moça ainda mais e ela só está sendo gentil.
Depois de pagar meu café, ela foi embora, achando que tinha consertado o mundo, sorrindo novamente, e meio que murmurando Singing in the Rain.
Só depois de beber metade do meu café doce demais de máquina que reparei que nem perguntei o nome dela.